Sobre acessibilidade

Serviços

18/05/2017 - 10:30

Garantir o direito a uma moradia digna era uma reivindicação antiga da Comunidade Quilombola do Abacatal, no município de Ananindeua. A parceria entre o Núcleo de Apoio às Populações Indígenas e Quilombolas-NUPINQ, ligado à Casa Civil, e a Companhia de Habitação do Pará-Cohab/Pa, proporcionou o atendimento dessa demanda, beneficiando inicialmente 60 famílias com o programa habitacional Cheque Moradia, em 2016. Para isso houve o investimento de R$ 704.500,00 em recursos públicos.

A presidente da Associação de Moradores e Produtores Quilombolas de Abacatal-AMPQUA, Vanusa Cardoso, diz que todo o processo teve uma execução muito rápida e contou com o comprometimento da própria comunidade. "Da primeira reunião que a Cohab realizou aqui, cerca de cem famílias participaram, mas houve um certo descrédito por parte de alguns moradores. Mesmo assim, conseguimos cadastrar sessenta famílias e todas receberam o benefício, sendo a maioria para nova construção. As demais famílias, viram a coisa acontecer e passaram a acreditar no projeto. Essas famílias já estão nos procurando para se cadastrar e isso vai dar cobertura total da comunidade, zerando a nossa demanda de atendimento", explicou.

Segundo a Diretora de Programa Especial de Moradia da Cohab, Ana Célia Cruz, a ação chegou aos quilombolas por meio do projeto Conviver em Aldeias, direcionado ao indígenas."Na verdade, a Cohab chega aos quilombolas por conta de uma debate inicial com os indígenas. Na estrutura de governo temos o Núcleo de Apoio a esses povos, e ao escrever o projeto para os indígenas, nós tivemos a ideia de atender também os quilombolas, e daí nasceu a edição do Conviver em Quilombos, Respeito à Diversidade Cultural, que é o nome completo do projeto".

A diretora da Cohab explicou ainda que a comunidade do Abacatal foi escolhida para ser beneficiada com o Programa Cheque Moradia por conta de seu processo histórico e pela indicação da equipe do NUPINQ, que já havia sinalizado que a mesma estava sem receber grande investimentos nos últimos anos.

Ana Célia Cruz complementa ainda a experiência mostra que a ação do poder público no atendimento de uma demanda de um público específico, na área da habitação, trouxe inúmeros resultados positivos. "Essa é na verdade uma replicação da experiência com o Projeto Rota Turística, na qual o público não foi até o poder público. Nós viemos buscar o público no seu local de moradia, e nós chamamos a isso de poder público dando resposta a sociedade", reforçou, enumerando alguns outros quilombos a serem alcançados pelo projeto. "Temos o quilombo Narcisa, na fase de monitoramento da segunda etapa, o Fé em Deus, o Mangueira, em Salvaterra,e o Espírito Santo, no Acará. A perspectiva é que possamos chegar a mais 150 famílias quilombolas até o final de 2017”.

Margarete Costa Barbosa está grávida. Ela e o marido começaram a construir a casa onde iriam morar com a enteada. Segundo ela, com a crise econômica os recursos ficaram escassos e eles não tinham condições de concluir a obra. Mas o Cheque Moradia possibilitou a conclusão da casa. “Na verdade eu nem acreditava que o Cheque Moradia viria, mas mesmo assim a gente se inscreveu e a ajuda acabou vindo. Sem isso, a gente não teria como concluir a casa. Como meu marido é também pedreiro, ele e o meu cunhado fizeram os serviços . Foi feito forro, o banheiro, reboco, pintura e a fossa, além da conclusão do quarto da minha enteada”, declarou.

Outra beneficiada que se alegra com o resultado do programa é Vivian da Conceição. A filha dela tem problemas de asma e é alérgica a poeira e fumaça. A médica disse que a menina teria que ter um quarto forrado e lajotado pra poder ter qualidade de vida. Como a família têm poucos recursos, não tinham condições de fazer o quarto. Mas foi quando o Programa Cheque Moradia chegou para a comunidade e conseguiu suprir essa necessidade. “Quando a médica disse que eu teria que fazer um quarto pra minha filha todo forrado e lajotado, eu me desesperei, porque não tinha condições financeiras. Mas quando o Cheque Moradia veio pra nós, eu me alegrei, pois pra mim era necessária essa ajuda. Eu e meu filho ajudamos o meu marido a construir e quando ele chegava do trabalho, eu já tinha até batido a massa de cimento e assim nós fomos construindo e fizemos tudo. Para mim, o Cheque Moradia ajudou muito”, avaliou.

Idalina Façanha, técnica social do programa Cheque Moradia diz que foi imprescindível a parceria da comunidade para que os resultados acontecessem. “Nós sabemos que a moradia é uma parte da cidadania para exercer a dignidade da pessoa, principalmente aqui, onde eles ficam um pouco isolados, não de cultura, pois muitos estão até cursando universidade. Vimos que eles têm as crendices muito presentes e tentamos destacar esse resgate pelo orgulho de ser um afro-descendente. Aqui a religiosidade também é muito presente. Essa cultura aqui é muito valorizada. A gente quando chegou aqui estabeleceu uma parceria e ajudou a resgatar a cidadania de cada família”, resumiu.

A comunidade quilombola de Abacatal se originou em 1710, quando um conde português Coma Mello doou a terra para três filhas negras, fruto de seu relacionamento com uma escrava. Localizada a dez quilômetros da BR-316, a área de 602 hectares, foi titulada pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa) em 1999, no primeiro governo de Almir Gabriel.

A comunidade tem como atividade econômica a agricultura familiar, com produção de farinha, tucupi e goma de tapioca. O escoamento dessa produção é feito em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) e é comercializada na Feira do Produtor Rural de Ananindeua. Também existem as culturas de frutos como cupuaçu, açaí, pupunha, castanha e uxi.

Texto: Rosa Borges (Ascom Cohab)
 Fotos: Cristino Martins(Agência Pará)